Doença do silicone existe?
Entenda a diferença entre o mito das redes sociais, a Síndrome ASIA e o linfoma BIA-ALCL
É muito comum, em consulta, ouvir a pergunta: "doutora, existe mesmo doença do silicone?" A dúvida é legítima — o termo circula bastante nas redes sociais, associado a uma lista longa de sintomas, e qualquer mulher que já usa ou pensa em colocar prótese de mama merece uma resposta séria, baseada em ciência, e não em modismo.
A resposta curta é: depende do que se está chamando de "doença do silicone". Existem, na verdade, três coisas diferentes sendo misturadas nessa conversa — e distingui-las é o primeiro passo para decidir com segurança.
O que as pessoas chamam de "doença do silicone"
Nas redes sociais, "doença do silicone" (ou breast implant illness, na sigla em inglês BII) é um termo popular usado para descrever um conjunto de sintomas inespecíficos — fadiga, dor articular, "névoa mental", queda de cabelo, entre outros — que algumas pacientes associam à presença do implante de silicone no corpo. Não é, até hoje, uma doença com diagnóstico clínico definido, com exames específicos ou com um mecanismo biológico comprovado — é uma nomenclatura de autorrelato, não uma entidade médica reconhecida.
Isso não quer dizer que os sintomas relatados não sejam reais ou que devam ser desconsiderados — quer dizer que a ciência ainda não conseguiu estabelecer, de forma consistente, uma relação de causa entre o implante e esse conjunto de queixas. E aqui a literatura mais recente é mais cautelosa do que categórica nos dois sentidos:
• Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025 na Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open (Bouhadana et al.), reunindo 36 estudos e mais de 10.500 mulheres, encontrou risco relativo maior para queixas como fadiga/mal-estar, mialgia/fraqueza e disfunção cognitiva em mulheres com implante, quando comparadas a mulheres sem implante — mas os próprios autores apontam que a falta de uma definição padronizada de BII é um dos maiores obstáculos da área, e reforçam que os dados são de autorrelato, o que limita conclusões causais firmes.
• Já outros estudos comparativos, como uma coorte pareada baseada em banco de dados nacional de sinistros de saúde nos EUA (Campbell et al., 2023, Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open), buscaram comparar diretamente mulheres com e sem prótese de silicone quanto a esses sintomas.
Ou seja: a ciência não fechou essa conta. O que existe, hoje, é sinal de que sintomas inespecíficos podem ser um pouco mais frequentes em algumas pacientes com implante — mas sem confirmação de mecanismo, sem exame que diagnostique "doença do silicone" e sem consenso da comunidade médica sobre a existência de uma doença específica com esse nome. É diferente de uma condição plenamente reconhecida, com critérios diagnósticos publicados — que é exatamente o caso da síndrome que vamos ver a seguir.
Síndrome ASIA: uma condição diferente, e essa sim já reconhecida na literatura
A Síndrome ASIA (Autoimmune/Inflammatory Syndrome Induced by Adjuvants — Síndrome Autoimune/Inflamatória Induzida por Adjuvantes), descrita pelo imunologista Yehuda Shoenfeld, é uma condição diferente da "doença do silicone" popular — e essa tem critérios diagnósticos propostos e é objeto de publicações científicas contínuas, inclusive recentes.
Um ponto importante, que costuma se perder na conversa: a ASIA não é sobre silicone especificamente. Ela descreve uma reação do sistema imunológico a "adjuvantes" — substâncias que estimulam ou modulam a resposta imune — e o silicone é apenas um dos possíveis gatilhos. Outros adjuvantes associados à síndrome, na literatura, incluem compostos de alumínio (presentes em alguns componentes de vacinas) e outros materiais usados em implantes e procedimentos estéticos.
Um relato de caso publicado em 2025 no European Journal of Case Reports in Internal Medicine (Yousfi, Oumlil e Essaadouni) descreve uma paciente de 35 anos que desenvolveu dor articular inflamatória, fadiga e mialgia após implante mamário de silicone, com melhora significativa após tratamento com corticoide — e os autores reforçam que "a ASIA deve ser considerada em pacientes com sintomas sistêmicos inexplicados após exposição a adjuvantes", destacando a importância do reconhecimento precoce para um manejo clínico adequado.
A diferença prática para a paciente é importante: a ASIA é uma síndrome de exclusão. Isso significa que o diagnóstico não é feito só porque a paciente tem prótese e sintomas — ele exige investigação clínica e laboratorial extensa, para descartar outras causas, geralmente conduzida em conjunto entre o cirurgião plástico e um reumatologista. Não é uma suspeita que se confirma pelas redes sociais; é uma hipótese que se investiga com exames.
BIA-ALCL: o linfoma raro associado a implantes texturizados
Existe ainda uma terceira condição, completamente diferente das duas anteriores, que também entra nessa conversa: o BIA-ALCL (Breast Implant-Associated Anaplastic Large Cell Lymphoma — Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado a Implante Mamário). Ao contrário da "doença do silicone" popular, o BIA-ALCL não é câncer de mama — é um tipo raro de linfoma do sistema imunológico, que costuma se manifestar no tecido cicatricial ou no líquido ao redor do implante, segundo o FDA (agência regulatória de medicamentos e dispositivos médicos dos Estados Unidos).
O que a ciência já estabeleceu com bastante consistência sobre o BIA-ALCL é a relação com o tipo de superfície do implante. Uma revisão de literatura publicada em 2025 no Journal of Clinical Medicine (Muntean et al.), analisando 17 estudos, encontrou que 13 deles confirmam associação entre implantes texturizados — principalmente os de macrotextura — e maior risco de BIA-ALCL, com cerca de 73% dos casos analisados envolvendo implantes texturizados contra apenas 3% em implantes lisos, e tempo médio até o diagnóstico entre 8 e 11 anos após a cirurgia.
Foi justamente esse acúmulo de evidência que levou o FDA a solicitar, em 2019, o recall voluntário mundial dos implantes texturizados Natrelle Biocell, da Allergan — medida seguida por agências reguladoras de outros países, incluindo Health Canada, Reino Unido, França e Austrália. Hoje, a tendência do mercado e da prática clínica é justamente o predomínio de implantes de superfície lisa ou microtexturizada, com perfil de risco muito menor para essa complicação específica.
Então, os implantes de silicone são seguros?
Sim — dentro do que a medicina considera "seguro" para qualquer dispositivo implantável: com indicação correta, técnica adequada e, principalmente, acompanhamento contínuo depois da cirurgia. É um raciocínio parecido com o de outros dispositivos que ficam no corpo por anos, como uma prótese de quadril, uma válvula cardíaca ou um marca-passo: nenhum deles é "vitalício" no sentido de nunca precisar de atenção depois de colocado, e o implante de mama segue a mesma lógica.
Isso significa, na prática:
1. O implante de silicone não dura para sempre. Ele tem vida útil, e é normal que, em algum momento, seja necessária uma nova avaliação — de rotina ou por alguma alteração percebida.
2. O acompanhamento por imagem é parte do cuidado, não um exagero. Diretrizes citadas em revisão publicada no Journal of General Internal Medicine (McKernan et al.) recomendam ressonância magnética cerca de 5 anos após a cirurgia, e depois a cada 2 a 3 anos, já que a ruptura do implante de silicone costuma ser silenciosa — diferente do implante salino, que esvazia de forma perceptível quando rompe.
3. Sintomas persistentes merecem investigação individualizada, não um diagnóstico feito por conta própria a partir de conteúdo de rede social — seja para investigar uma possível ASIA, seja para afastar outras causas completamente independentes do implante.
4. Alterações locais no implante — inchaço, caroço ou dor na região — devem ser avaliadas prontamente, especialmente anos após a cirurgia, quando é o momento em que o BIA-ALCL costuma se manifestar.
Como toda cirurgia e todo dispositivo implantável, colocar prótese de silicone envolve riscos que devem ser avaliados individualmente antes do procedimento — e o acompanhamento no pós-operatório, incluindo os exames de imagem, é parte do tratamento, não uma etapa opcional.
O que fica dessa conversa
"Doença do silicone" como é usada nas redes sociais ainda não é uma entidade médica reconhecida, com diagnóstico e mecanismo definidos — e tratar sintomas inespecíficos automaticamente como "doença do silicone" pode atrasar a investigação de outras causas reais.
A Síndrome ASIA é uma condição diferente, com critérios diagnósticos propostos na literatura científica, mas que exige investigação médica cuidadosa e não se confirma sozinha. E o BIA-ALCL é uma complicação rara, mas com relação bem estabelecida ao tipo de implante — o que, hoje, orienta diretamente a escolha do dispositivo e a forma de acompanhamento.
Nenhuma dessas informações substitui uma avaliação individual. Se você tem prótese de silicone e sintomas que te preocupam, ou está pensando em colocar e quer entender os riscos reais antes de decidir, o caminho seguro é conversar com quem acompanha o seu caso — não com um vídeo de rede social.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado presencialmente para indicação, riscos e plano de acompanhamento adequados.
Dra. Luiza Zonzini — CRM-SP 129326 | RQE 140807 — cirurgiã plástica na Clínica Civitali, em São Paulo.
Fontes científicas citadas
• Bouhadana G, Boucher C, Saleh E, Gornitsky J, Borsuk DE. "Defining Breast Implant Illness: A Systematic Review and Meta-analysis of Patient-reported Symptoms." Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open, 2025. PMC12088632
• Campbell C, Kilmer L, Stranix J. "A National Claims Database Case-Matched Cohort Comparison of Breast Implant Illness Symptoms in Women with and Without Breast Implants." Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open, 2023. PMC10566782
• Yousfi J, Oumlil S, Essaadouni L. "Autoimmune/Inflammatory Syndrome Induced by Adjuvants (ASIA) after Silicone Breast Implants." European Journal of Case Reports in Internal Medicine, 2025. PubMed 39926580
• Muntean MV et al. "Unveiling the Controversy: A Literature Review on the Link Between Textured Implants and Breast Implant-Associated Anaplastic Large Cell Lymphoma (BIA-ALCL)." Journal of Clinical Medicine, 2025. PMC12156254
• U.S. Food and Drug Administration (FDA). "Questions and Answers about Breast Implant-Associated Anaplastic Large Cell Lymphoma (BIA-ALCL)." fda.gov
• McKernan CD, Vorstenbosch J, Chu JJ, Nelson JA. "Breast Implant Safety: an Overview of Current Regulations and Screening Guidelines." Journal of General Internal Medicine, 2021. PMC8738800











